Migram as sementes nas asas do vento, migram as aves
nas correntes sazonais, migram os peixes para se reproduzirem, migram os
animais atrás de melhores ares e melhores pastagens... Enfim,
migra o ser humano em busca de um futuro mais promissor. Assim se expressava o
bispo de Piacenza, Itália, Dom João Batista Scalabrini, “pai e apóstolo dos
migrantes” no final do século XIX. Tempo conturbado pela revolução industrial,
marcado por grandes deslocamentos humanos, tanto do campo para a cidade quanto
do velho continente europeu para as novas terras da América. Século do
movimento, diz o historiador Peter Gay, que estima em 62 milhoes o número de
emigrantes que deixam a Europa entre 1820 e 1920.
Como o vento e as aves, que transportam o pólen para a geração de novas flores
e frutos, também os seres humanos, em seus deslocamentos de massa, são
portadores de sementes de vida nova. Diferentemente do vento e das aves, porém,
os migranres, com os valores da própria trajetória histórica, fecundam terras,
culturas e outros povos, ao mesmo tempo que recriam civilizações. Se é verdade
que no coração de cada pessoa e no coração de cada cultura existem sementes do
Verbo encarnado, o ato de migrar, por si só, constitui fator decisivo de
evangelização. De maneira consciente ou inconsciente, o emigrante, individual
ou coletivamente, leva consigo uma bagagem que servirá de intercâmbio para o
enriquecimento dos povos. Daí a expressão do título, extraída de uma das
mensagens do Papa Bento XVI para a Jornada Mundial das Migrações.
A fome e a fuga
Atualmente, por toda a extensão do planeta, milhões e milhões de pessoas estão
em fuga. No Haiti, Somália, Bangladesh,Indonésia ou Tailândia, fogem de
catástrofes naturais, tais como terremoto, inundações ou estiagens prolongadas.
Nos países do norte da África ou Oriente Médio, onde se fala de uma primavera árabe,
fogem da fúria de tiranias que, com unhas e dentes afiados, insistem em manter
o poder a qualquer custo. Em outros países africanos, evitando serem trucidadas
por ódios insanos, fogem de tensões, guerras fratricidas e genocídios. Em
várias regiões da América Latina e da Ásia, fogem de situações socioeconômicas
adversas, tais como a fome, a miséria e a falta de trabalho, ou de conflitos
armados que colocam a população entre dois fogos: forças militares, de um lado,
e guerrilheiros, de outro. Em não poucas partes do globo terrestre, fogem de
enfrentamentos sangrentos, revestidos de uma roupagem ideológica, religiosa ou
política. Há os que fogem, por uma parte, repelidos pela pobreza, de outra,
atraídos pelas oportunidades do capital e das novas tecnologias, especialmente
do hemisfério sul em direção ao hemisfério norte. E há, ainda, os que vivem e
trabalham em constante deslocamento, tais como ciganos, marinheiros,
caminhoneiros, aeroviários, técnicos, estudantes...
São terremotos de toda ordem que geram tsunamis humanos em ondas cada vez mais
expressivas e poderosas. Os rostos são muitos e muito variados:
emigrantes/imigrantes, refugiados, itinerantes, deportados, exilados, prófugos,
estrangeiros irregulares, migrantes temporários e/ou internos, trabalhadores de
distintas categorias. Entrelaçadas são também as rotas que percorrem, cada vez
mais complexas e diversificadas. Difícil hoje encontrar um país que não esteja
envolvido com o fenômeno migratório, como lugar de origem, como lugar de
destino, como lugar de trânsito, ou tudo isso ao mesmo tempo. As migrações
tornam-se mais intensas em volume de pessoas e em diversidade de trajetórias.
De acordo com estatísticas da ONU, estima-se em mais de 200 milhoes o número
daqueles que não residem no país em que nasceram. Número subestimado, uma vez
que, por um lado, não contabiliza os que se deslocam temporariamente ou dentro
do próprio Estado e, por outro, não dá conta de abarcar a grande maré dos “sem
papéis” ou indocumentados.
No século XIX o êxodo rural ou os deslocamentos humanos tinham uma origem e um
destino mais ou menos determinados. Também o movimento do nordeste para o
sudeste industriazizado, no Brasil, a partir dos anos de 1930-40, obedecia a
certo plano de mudar-se para “fazer o futuro”. Em ambos os casos, prevalecia
uma desinstalação temporária com vistas a uma nova reinstalação. Como a uma
árvore, arrancava-se a pessoa e/ou a família de suas raízes para replantá-la em
outro terreno, em geral mais promissor. Muitos europeus e muitos nordestinos
transplatavam-se, com o intuito de recomeçar a vida em um novo lugar. Estava
mais ou menos implícita a idéia de migração definitiva. Sem dúvida, o sonho do
retorno permanecia sempre muito vivo, mas podia ser adiando indefinidamente.
Nas últimas décadas, porém, as migrações ocorrem de forma desordenada e
repetitiva. Muitos migrantes empreendem sua trajetória por etapas, passando por
vários países, com a meta sempre aberta e retomada de chegar a algum lugar
definitivo, notadamente os Estados Unidos ou a Europa. Esse horizonte, porém,
esbarra em numerosos entraves, tais como leis cada vez mais rígidas,
particularmente depois dos atentados de 11 de setembro/2001, economias
fragilizadas e instáveis, criminalização dos migrantes, barreiras aduaneiras...
De tal forma que, mais do que uma migração simples, com saída e chegada
previsíveis, prevalece hoje um vaivém contínuo e complexo, em todas as
direçoes, que pode durar uma vida inteira. Cada ponto de chegada se converte em
novo ponto de partida. Não raro, em lugar de meio para chegar a determinado
lugar como fim, a migração se converte em um fim em si mesma. Vira uma espécie
de modus vivendi.
Crise da modernidade
A fome e a fuga que caracterizam o contexto globalizado da mobilidade humana
constituem o maior ponto de interrogação à chamada civilização ocidental. Filha
dos “tempos modernos”, esta apontava positiva e euforicamente para as grandes
utopias do século XIX. Em nome da razão, da ciência, da tecnologia, do
progresso e da democracia (cinco conceitos que formam uma espécie de credo da
modernidade), todos os ploblemas seriam resolvidos. O ser humano se emamcipa da
tutela divina (Deus é uma hipótese descartável) e se lança à aventura de
recriar um mundo sem injustiça, nem desigualdade ou violência. O ser humano
desvenda os mistérios do universo, da naturaza, da história e do próprio corpo.
Nas palabras de Weber, “o mundo se desencanta” e avança para conquistas
inimagináveis.
Mas esse ufanismo dos tempos modernos derrete-se no decorrer do século XX.
“Tudo que é sólido se desmacha no ar”, profetizava já em 1948 o Manifesto
Comunista. Inicia-se, ainda no final do século XIX, a “crise da modernidade”
(Alain Touraine) com os filósofos da suspeita: Marx. Freud e Nietzsche.
Inicia-se também a desconstrução do credo moderno e positivista. A barbárie
retorna com toda a força: duas guerras mundiais, impérios e formas de
colonização, conflitos localizados, a insanidade do holocausto, asimetrias cada
vez mais profundas entre ricos e pobres, individualismo exacerbado… O que traz
de volta o sagrado em uma multiplicidade de deuses no plural. As verdades se
convertem em dúvidas, as respostas em novas interrogações. As perguntas são
maiores que nossa capacidade humana de responder, o que caracteriza a crise.
Parafraseando Simone Beauvoir, as estrelas se apagam no céu, os marcos
desaparecem da estrada e o chão foge debaixo dos pés.
A razão e a ciência engendram um mundo irracional, seja do ponto de vista
socioeconômico, seja do ponto de vista político, cultural e ecológico. Razão,
ciência e tecnologia, por sua vez, ao mesmo tempo que desenvolvem procedimentos
medicinais de ponta, capazes de salvar e prolongar a vida humana e até animal,
combinam-se para a criação das grandes máquinas de matar, verdadeiros monstros,
com artefatos cada vez mais letais e sofisticados. As referências sólidas da
modernidade se liquefazem juntamento com o contrato social, para usar os
adjetivos de Zygmunt Bauman.
Migração como “sinal dos tempos”
Nesse cenário, as granes ondas migratórias, quais verdadeiros tsunamis causados
pelos terremotos econômicos, políticos, sociais, culturais e naturais, aparecem
como um “sinal dos tempos”, em dupla perspectiva. De um ponto de vista
negativo, interpelam e denunciam uma civilização que sequer conseguiu oferecer,
na terra natal, uma sobrevivência mínima a milhões de seres humanos.
Desterrados do solo pátrio, erram pelas estradas do êxodo. Nem cidadãos deste
ou daquele país, nem cidadãos do mundo. Trabalhadores para os serviços sujos e
pesados, mas sem direito ao status de cidadania. Errantes que nos dirigem
olhares e gestos silenciosos, mas nem por isso menos questionadores. O grito
dos mutilados da história, dos sem voz e sem vez, justamente por seu
silenciado, costuma vir carregado de apelos mais elocuentes.
Em termos positivos, as migrações são um “sinal dos tempos” na medida em que
clamam por mudanças. Mudanças urgentes, profundas, substanciais, seja em nível
interno de cada nação, seja nas relações internacionais da economia
mundializada. Neste caso, os migrantes entram em cena como profetas e
protagonistas, às vezes sem o saber, da busca de alternativas. O simples fato
de pôr-se a caminho, faz marchar a história. Movem-se e movem as engrenagens da
sociedade em permanente mutação. Podem, com isso, apontar veredas novas para horizontes
mais largos e abertos, plurais e democráticos, solidários e sustentáveis.
Através do processo migratório, como uma entre as várias alternativas de
sobrevivência, superam a fome e a fuga, caminhando em busca em de uma nova
sociedade e, quem sabe, de uma nova civilização.
Pe. Alfredo J.
Gonçalves, CS